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31 de março de 2017

Casas no Ar

Eu deixo-te ficar se me deixares ser - ser livre ao pé de alguém.
O normal é demente e o louco é sano
A sociedade não é de consumo, é de abuso
Aquele que não precisa de mais, um intruso.
As vozes gritam sem tempo de antena
dançamos com sons ocos entre odes a uma lua atenta
uma playlist de amor, escárnio e maldizer
que grita:
tira de mim o que precisas.
Não me alimento de substâncias,
Subsisto de violências, vivo de essências
Sempre precisei de ser consumida – até extinguir.

E se a vida é isto amor eu não quero mais, mas quero sempre mais de nada.
E se a vida é isto amor não me dês mais nada.
E se a vida é isto amor sê-me tudo e deixa-me ser nada.
Sou um nada que é tudo, o todo pela parte
A minha parte nunca foi mais que nada 
e o meu todo já partiu em tudo o que parte.
São metades em que me parto
Se na minha cara-metade estiver a metade que procuro,
Isso chega-me para ser arte.

As pessoas fogem de tudo e eu não sou exceção:
a minha sombra não me segue todo o dia,
o espelho desvia o olhar de antemão.

Fé de asas coladas, madrugadores de alvoradas
heróis de costas voltadas, amantes de cicatrizes vincadas
Não somos mais que almas desencontradas 
que se encontram nas palavras
Aliás, não somos mais que
Só somos.

Nem isso.
nem ser somos
- somos seres que nem sabemos ser.
Eu não sou, eu estou.
E na procura pelo que sou, vou estando,
tanto como na descoberta do estar, vou sendo.

11 de fevereiro de 2017

Para Ti

Desde que me escreveste que o percurso foi agitado. Física, mental e espiritualmente. Um carrossel cuja paisagem envolvente muda a toda a hora.

Sempre que acho que mudei (para melhor) faço algo que me relembra que ainda sou a mesma miúda perdida do ano passado. Não que isso seja com ações significativas, nem tão pouco semelhantes àquelas que foram do conhecimento geral. Não… nada de exposto, nada de físico sequer. Tão pouco de preocupante. É apenas um clicar na minha mente que me lembra que (ainda) não estou bem. Se calhar nunca vou estar – e se calhar isso é o certo. Se calhar a minha essência é esta: à deriva… às vezes à tona, às vezes no fundo. Com ondas de felicidade e com vagas de melancolia, com nuances de uma desmotivação e desinteresse que me fazem perguntar quem sou, onde está a Inês de antes, que fascinava as pessoas e as fazia ver em mim um potencial que agora não reconheço. Às vezes acho que a minha força ficou no chão daquele quintal. Mas depois lembro-me que eu saí de lá. Estou de pé – pelos outros, e mais recentemente, por mim. Tropeço às vezes, mas nunca sei se chego ou não a tombar.

A Alice… ela será sempre parte de mim. Havia uma Inês antes de haver Alice, mas não sei se haverá alguma vez outra vez apenas a Inês. Eu acho que não. Às vezes a Alice abraça-me com tanta força que me soa a sufoco, outras vezes, coabitamos pacificamente no mesmo corpo.

E tens razão quando dizes que o meu problema sempre foi de sensibilidade… aliás, é mais que isso, é uma fome inesgotável de experiência, uma luta pela liberdade que acho que nunca chego a ganhar. As dúvidas são idênticas, a vontade de fugir é tanta quanto antes. A necessidade de escape não fugiu. Apenas encontrei outras formas de me ausentar – mais saudáveis, menos perigosas. Escrever é uma delas. Manter-me ocupada. Fazer o máximo que consigo pelos outros. E não é máscara, não sou eu a fugir aos problemas. É terapia. É cura.

Continuo sem encontrar sentido para este mundo, para esta humanidade, para estas pessoas, e para esta Alma em que me metamorfoseio. A única resposta que encontro é que o problema não está na abordagem, mas na origem: nos pensamentos, os que pesam, os que não me deixam dormir, os que não me deixam estudar, os que não me deixam sossegar. Por algum motivo o Livro do Desassossego está sempre na minha mesa de cabeceira. Por algum motivo me sinto mais próxima da minha pessoa quando leio Pessoa. Sinceramente, acho que a resposta nunca chegará. A parte boa é que isso me mantém à procura. Talvez não seja tão errado assim.

Continuo a viver num mundo que me soa tão estranho quanto a ti. Não sei bem se vivo mais na fantasia ou na realidade, nem o que será menos doloroso. No entanto, isto não é uma carta triste. A felicidade é sobrevalorizada, de qualquer maneira, na minha ótica. É um sentimento como outro qualquer. Felicidade, tristeza, saudade, melancolia, entusiasmo, excitação… é tudo instantâneo, de curto prazo e todos estes aspectos devem ser vividos. Não quero estar feliz sempre. Mas vou sempre ter a personalidade contente vigiada por uma alma triste.

Há coisas que doem e vão doer sempre mas eu encontro beleza na tristeza. Danos colaterais. Por algum motivo continuo inconscientemente a rodear-me de pessoas que acho que posso salvar. Exausto da vida? Mesmo o meu tipo. A ansiedade acompanha-te à noite? Vamos ser amigos. Será que se os salvar a eles, liberto-me a mim? Ou acabo por sugar os problemas dos outros para o meu próprio núcleo, e com eles, a minha energia toda?

“A satisfação provém da luta.” Prometo continuar a lutar. E apesar de ir ao chão tantas vezes, vou manter o escudo baixo. Só assim se reconhecem amigos no lado que julgávamos inimigo. Vou manter o escudo baixo porque o que nos é desconhecido não tem de ser sinónimo de nocivo. Manter o espírito aberto ao que vier.

“O que se passou está bem…” nos dias em que lhe reconheço ensinamento. Crescimento. O que se passou está mal nos dias em que só vejo o dano que causei.
“O que eu sou está bem…” nos dias em que me aceito e reconheço. O que sou está mal quando deixo que a Alice tome posse integral e me tolde o discernimento.
“Ela está bem…” Ferida… pela vida… por mim, mas bem. Eu tento. Pagarei para sempre a dívida dos meus crimes, mas é uma fatura que me voluntario a restituir. Ela merece.

Há frio e quente. Há prazer e dor. Há certo e errado, mas as linhas são ténues. “Não sou bem nem mal, sempre fui só plural”. Somos o que somos, não somos o que fomos. Somos o que ainda não somos. Somos o quanto isso dói e somos o quanto isso nos faz feliz. Podemos não ser aquilo que ainda não somos, mas somos sempre mais aquilo que aspiramos a ser.

Sabes, há coisas más que acontecem e passam. Há outras que magoam todos os dias. Acho que aquele compasso de tempo se insere na segunda categoria. Ainda estou a aprender a lidar com isso, a toda a hora. Aliás, senão não estaria a escrever-te isto agora. O meu passado invade-me o presente e se por um lado, lamento, por outro, agradeço.

Às vezes sinto que as minhas escolhas me batem mais à porta do que as opções dos outros lhes batem às suas campainhas. Eu às vezes queria um dia sozinha em casa, sabes? 
Os meus erros relembram-me que existem cada vez que olho para as minhas cicatrizes. 
Os meus erros relembram-me que existem cada vez que não aguento mais de uma hora a andar. 
Os meus erros relembram-me que existem cada vez que não posso arranjar um emprego normal numa loja de roupa comum. 
Os meus erros relembram-me que existem cada vez que quero correr e não posso. 
E, nos dias maus, eu só queria ser uma pessoa normal – o que quer que seja que isso signifique. Só queria poder fazer o que toda a gente faz. Só queria pousar a cabeça na almofada à noite e não ter aquele dia de setembro a passar-me em revista à frente dos olhos, como uma história de embalar. Só queria dormir e não sonhar que estou a cair eternamente como a Alice no buraco. Só queria não escrever sobre isto a toda a hora, queria não falar disto a toda a hora mas nos dias maus eu não sei calar(-me).

Mas ao mesmo tempo… há sempre alguém a ouvir. Mas ao mesmo tempo… 
Os meus erros relembram-me que resisti. Os meus erros relembram-me que tive uma família que nunca saiu da minha cabeceira. 
Os meus erros relembram-me que tive amigos que viram tudo e não foram embora. 
Os meus erros relembram-me que conheci pessoas novas que, apesar de saberem a narrativa, não aceitam que ela seja de alguém como eu. Não é essa a Inês que eles veem. 
E nos dias bons eu não quero ser uma pessoa normal. Os meus erros relembram-me que podes começar de novo. Nos dias bons eu quero ser esta pessoa, esta Alma dorida neste corpo vencido, que se regenera na hora a seguir. E por mais que mudar de morada não deixe a casa que levo às costas lá atrás, deu-me um recomeço.

A Alice, não é nem o que eu gostava de ser, nem é o que eu sou. Ela continua a ser parte intrínseca de mim, quer eu queira, quer não. Mas não é o meu eu na totalidade, nem eu seria eu sem ela. Só assim sou fiel a mim mesma. Só assim sou real.

E portanto, quanto ao passado… há dias em que vivo nele. Mas noutros, nos em que ele apenas vive em mim, ele relembra-me que não devo tentar passar-lhe uma borracha por cima, mas sim escrevê-lo a caneta. Pois isto é só uma história e não A Minha História. Essa, ainda está a ser escrita. E um dia vou lê-la, e aperceber-me que já nem me lembrava dela…

E sim, a vida tem uma força infinita… Mas nós também…

Inês (& Alice)





13 de janeiro de 2017

Recuperação

O corpo está exausto mas a cabeça não descansa. Viver cansada, cansa. Mas então, já não tropeço nos declives das minhas reentrâncias. Entre coexistências perpendiculares, somos paralelos. Entre receitas basilares de felicidade – é assim que soa? 
O recomeço espiritual – sem títulos nem rótulos, tão-somente esperança. Compensar a divida da falta de confiança. Retribuir em dobro o saldo que fui acumulando na poupança. Curar os erros que trago de herança. É tempo de bonança… meu amor… é desta que os prós pesam mais na balança. 
Não fugir mais. Ensina-me a que sabe ficar. Talvez o que agora se passa se torne num contrapeso quando passar a passado. A contrariar tudo o que dói, tu. Por cada marca vincada, uma noite contigo. Por cada cigarro, uma nuvem de desabafo. Por cada copo de vinho, uma história insossa. Um dia conto a nossa. Por cada medo de me expor, um entregar-me a ti. Por cada hora passada a reflectir com a lua, outra encostada à tua companhia.  Atenua as minhas cicatrizes. Queria ser real outra vez. Ser menos Alice, mais Inês. Menos dormente, mais porquês. Não aceitar o peso na consciência como se pagasse renda. E não sei se é estigma, karma ou universo, quem sabe o mundo virado do avesso. Mas um dia destes ligo para as emergências a comunicar um desaparecimento: Socorro, perdi a Alice. E nunca mais a encontrar…

2 de dezembro de 2016

Não gosto de precisar de ti. Gosto que precises de mim - A dualidade fundamental, o ensaio experimental que testamos – ser felizes, ou medianos? 
Quero sossego. 
Quero paz. 
Quero ser capaz de ser longe. 
Quero estar longe e só ser. 
Quero indiferença. 
Não quero ver a nossa diferença – o que éramos, o que nos tornámos. Tornados passaram por aqui e ficámos virados do avesso. Qual é o preço a pagar para voltar ao nosso apreço? E aquilo que te peço, tão simples quanto isso, é que fiques. Não evites, não há lugar a coisa triste, a morar em ti. O mundo que não faça de ti morada, a conquista suada de história ultrapassada, a vitória conquistada de sair. Por a mala de viagem à porta e ir. O caminho é sempre O Caminho, não há como fugir do destino. Que te toque o Fado, seja em tom melancólico ou alegre, mas sempre… 
...em frente. 

1 de dezembro de 2016

Parte a parte, amar-te como se o teu corpo fosse feito de arte. Minha doce loucura, encontramo-nos na lua para um cigarro e um debate. A noite guarda os nossos segredos, que somos menos (nós) quando nascer a manhã amanhã. A lua a patrocinar os suspiros - diz me os hábitos, conta me os vícios. És tu aquilo em que te tornas? Ou ficaste caído junto ao vinho que entornas? 
Diz me como se vive quando não se sabe como viver. Flutuamos por entre  noites que ficarão esquecidas em polaroids ao abandono, como as almas que percorro quando te conto.  Diz me como se vive quando não se sabe como viver. É melhor ir... Ou esquecer? Lembras te daquela noite em que vimos a estrela cadente? 
- não, eras tu... 

26 de outubro de 2016

Repletos de ecos de dialectos que não entendemos
estrangeiros, nos mesmos becos incorrectos
um descomeço que inicia de novo no compasso
com um adereço sentimental, de um recomeço ideal
- o meu amuleto: o teu peito. levo-o no bolso.
Escrevo quem sou para ver se descubro
ou se me transformo.
As palavras não dizem tudo, no silencio...
...ouve-se mais,
é nele que nos encontramos de novo,
a cabeça, pesa, de novo.
Será que podes falar do passado sem o trazer ao teu encontro?
Será que podes falar do que fizeste sem estar outra vez no poço?
A água não te limpa, chora-te
A dor não te cura, transforma-te
Pouco resta neste presente, presente neste lugar
O sitio que me fez ser peregrino…e abalar
Ir…sempre ir…navegar
Não afundar.
E na recta final? Só conta o que feliz, fiz mal?
Ou pesa o preço que paguei para sempre?
Erros aos 20 que se pagam durante sessenta
Quando aos quinze achas que o amor tem 40
Esse afecto que agora entendes um dia não fará sentido
E quando deres por isso – o seu fim sempre esteve decidido
Destino? Ou livre arbítrio vivido? 
Somos emigrantes da tristeza (fugimos do país que nos dói cá dentro)
Somos embaixadores da mágoa (que representamos em todo o perímetro)
Pode ser que um dia, tudo isto tenha piada…

Até lá… mantenho-te como a minha morada.

2 de setembro de 2016

Insomnia

5 de Setembro. Ano passado. Agora, no presente, é isso mesmo: passado. Um rascunho da minha pessoa - estou a passar a folha a limpo. Fazer as correcções. Ajustar o tipo de letra. Ou de meta. Passo a passo. Tropeço no pretérito (im)perfeito, mas já não caio [eu ia...mas já não vou]. Afirmação negativa. Primeira pessoa do singular.

Um ano plural cheio de etiquetas nas costas, que agora arranco, uma a uma. Não me pertencem. Já não. Um ano que não apaga quem fui, mas molda quem sou. Um ano em que amanhã sou melhor. Se somos o resultado do que fizemos, o meu saldo é negativo... A parte boa da equação é que estou a descobrir as contas de somar.

Pouco ou nada escrevi sobre o assunto que tanto me escreve e descreve. Estranho em mim, que sempre encontrei na poesia, a companhia. Talvez a ausência de palavras seja sinónimo de que foi uma marca tão grande que nada mais há a dizer sobre ela. Apenas isso, apenas existe e não merece mais atenção que (toda) essa.

Diálogos preenchidos a dúvida: "Onde está a Inês que eu conheço?" - não sei. Se a vires, pergunta-lhe. Também gostava de a encontrar. "Não vais andar" - não faz mal, eu corro. "Não vais melhorar" - não faz mal, eu sobrevivo. "Vais ter dores" - que não me consomem. São o que resta quando tudo o resto some. São o que há quando a falta de amigos se descobre. São o que existe quando sou feita do teu nome. São o que tenho quando custa ver o horizonte. Alimento-me delas para me manter forte. 

À noite doem mais entre os lençóis frios, vazios. À noite dói mais porque estou tão cheia de mim. Eu não sei viver aqui. Não sei viver assim. Estou a aprender a estar em mim. Sempre gostei da mudança - viver no mesmo sítio cansa. 

Se a minha morada sou eu própria, está na hora de aprender a viver com a casa às costas. Pronta a partir. Eu só sei ir... Eu sempre soube só ir. Nunca aprendi a vir. Queria tanto saber voltar. Saber ser, saber estar. 

O mar é imenso e leva-me. A noite não tem fim e conserva-me. Fujo de mim mas a mim volto - menos eu, mais alguém. Eu sei... ser eu não significa ser ninguém. Eu nunca soube o que significa ser eu, tão pouco o que é ser alguém. Existo, resisto, subsisto. Sonhos frustrados, frustrações sonhadas. Braçadas dadas contra a corrente. No meu dia, o Sol  está sempre poente. Não aceito mais o poluente. Sou crente na crença de que já não posso encontrar a cura na doença. A minha dor é intensa. A falta de (c)alma, imensa... Mas o que quer que aconteça, a vontade de ultrapassar, ultrapassa. 

25 de julho de 2016

Esta cidade anda muito depressa. Não há tempo para sonhar.